Entrevista com o Prof. Dr. Manoel Odorico de Moraes Filhos

1 – Qual a finalidade do NPDM e qual a sua importância para o País?

O mercado farmacêutico global está mudando rapidamente forçando as indústrias a melhorar a competitividade por meio de investimentos em tecnologia e inovação. A descoberta de novos fármacos e seu desenvolvimento em produtos para a saúde tem amplo espaço na indústria farmacêutica nacional. A justificativa básica para esses empreendimentos é o corpo cumulativo de informações científicas e biomédicas produzido em institutos de pesquisa e universidades, e a necessidade de inovação na indústria farmacêutica do País. Os trabalhos conjuntos de químicos, biólogos, físicos, farmacologistas, toxicologistas, estatísticos, farmacêuticos, dentistas, enfermeiros, médicos e de muitos outros profissionais faz parte da descoberta de novos fármacos e de seu processo de desenvolvimento.
Em função da crescente demanda das indústrias farmacêuticas nacionais, foi idealizada a construção do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimentos de Medicamentos (NPDM) reunindo as competências já existentes na Universidade Federal do Ceará. Nesse contexto, é importante ressaltar que a pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos envolvem um estudo multidisciplinar iniciado pela abordagem química, identificação de alvos terapêuticos, passando pelos testes farmacológicos e toxicológicos pré-clínicos, técnicas de formulações farmacêuticas, culminando com a avaliação da segurança e eficácia em seres humanos. Uma das principais vantagens de um Núcleo de Pesquisas dessa natureza é propiciar a integração multidisciplinar entre pesquisadores das diversas áreas com o interesse comum na pesquisa e desenvolvimento, e dessa forma, racionalizar a competência técnica e cientifica, assim como, o tempo necessário para a pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos. Certamente, o potencial técnico e científico inovador do NPDM deverá contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos não somente com moléculas sintéticas, mas, sobretudo a partir de moléculas prospectadas na nossa biodiversidade.
Nesse sentido, o NPDM foi concebido com objetivo de promover e executar estudos científicos, prestação de serviços, desenvolvimento tecnológico, inovação e capacitação de recursos humanos, para atender a pesquisa pré-clínica e clínica necessária para o desenvolvimento de medicamentos na indústria farmacêutica e em consonância com as políticas e diretrizes definidas pelo Ministério da Saúde, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e o Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio Exterior.
Portanto, o NPDM deverá atender as estratégias do Complexo Industrial da Saúde, reduzir os gargalos para a PD&I de medicamentos no País, nuclear indústrias farmacêuticas que poderão se beneficiar da assessoria técnica e da sua prestação de serviços para criar um polo industrial farmacêutico no Ceará, atender a demanda de PD&I de medicamentos da indústria, pesquisar e desenvolver fármacos e medicamentos inovadores, estudar medicamentos na busca de novas aplicações terapêuticas, estimular o desenvolvimento da química farmacêutica, pesquisar e desenvolver medicamentos para doenças negligenciadas, contribuir para a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, e contribuir para o estudo da biodiversidade como fonte de medicamentos.

2 – Quando o senhor teve a ideia de criar o NPDM, qual o principal desafio que encontrou pela frente?

Foram muitos desafios. Em primeiro lugar, foi a falta de credibilidade e a discriminação por estarmos situados no Ceará, distante dos centros de decisão do País e das grandes indústrias farmacêuticas. Mas, quando visualizaram o currículo dos pesquisadores envolvidos, se renderam ao óbvio, ou seja, a existência de pessoal qualificado e competente na UFC para executar tudo aquilo que foi proposto no projeto. Foram mais de trezentos ensaios clínicos realizados ao longo de mais 20 anos, que nos credenciaram como referência na pesquisa clínica no País. Os nossos 286 trabalhos publicados referendam a nossa competência também na área da pesquisa pré-clínica, tanto na farmacologia como na toxicologia. Além disso, quando computamos as publicações de todos os pesquisadores que irão trabalhar no NPDM, esse número ultrapassa, facilmente, o expressivo número de mais de mil publicações de qualidade, nos últimos 10 anos.
Entretanto, o maior desafio encontrado, foi vencer a burocracia irracional que tanto dificulta o desenvolvimento do País e os investimentos em ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Desde a concepção desse projeto até a sua conclusão foram mais de 10 anos de constante batalha para vencer a inercia dos entraves burocráticos e as armadilhas legais que apareciam a toda hora.
Nesse sentido, é importante ressaltar que sempre contamos com o apoio irrestrito da FCPC (Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura da UFC) na pessoa do seu presidente, professor Francisco Guimarães e do seu corpo de técnicos, em especial, a Sra. Flávia Martins Aguiar, que nunca mediram esforços para resolver todos esses problemas.

3 – Qual a estratégia utilizada pelo senhor para conseguir financiamento?

A estratégia não poderia ser outra além de mostrar que o grupo de pesquisadores comprometidos com o projeto tinha a competência necessária para torna-lo exitoso. O CV Lattes desses pesquisadores é a prova inconteste da minha afirmação. Além disso, o nosso histórico de trabalho com a indústria farmacêutica não deixa dúvidas do nosso compromisso com o trabalho sério e competente. A nossa Unidade de Farmacologia Clínica (UNIFAC) coordenada pela professora Elisabete Moraes, foi a pioneira no Brasil na realização de estudos clínicos com medicamentos. Foi a primeira unidade de pesquisa com estrutura clínica e laboratorial dedicada exclusivamente à pesquisa de medicamentos em seres humanos de toda a América Latina. Os nossos estudos de biodisponibilidade/bioequivalência foram responsáveis pelo registro de mais 150 medicamentos genéricos. Ensaios clínicos com fitomedicamentos permitiram também o registro de 32 medicamentos derivados de plantas. Além desses, 71 estudos Fase I, II, III e IV complementam o nosso portfólio de trabalho para a indústria.
Por outro lado, as pesquisas farmacológicas e toxicológicas não clínicas dos nossos pesquisadores completam a cadeia de desenvolvimento de medicamentos, tão necessária para atender a indústria farmacêutica brasileira.

4 – Que apoio o Senhor tem tido da UFC?

Nunca, em tempo algum, nos faltou apoio institucional da UFC para vencermos essa empreitada. Nenhum dos reitores que administraram a UFC, ao longo do desenvolvimento do projeto, colocou empecilho de qualquer natureza para dificulta-lo. Muito pelo contrário, todos foram unânimes em apoia-lo. O Professor Roberto Cláudio foi parceiro desde há primeira hora e disponibilizou o terreno que entrou na contrapartida da UFC para o projeto. Os Professores René Barreira, Ícaro Moreira e Luiz Carlos Saunders apoiaram e atenderam a todas as nossas reivindicações. Por fim, O professor Jesualdo Farias fez a interlocução com o BNDES e constituiu legalmente a Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC, aprovado por unanimidade pelo CONSUNI.
Nesse contexto, não poderíamos deixar de mencionar o Dr. Carlos Marques, assessor do Reitor Jesualdo Farias, que foi peça fundamental na concepção da forma jurídica do NPDM.

5 – Em termos de recursos humanos, como está estruturado o NPDM?

O NPDM será constituído por professores, técnicos de nível superior, técnicos de nível médio. Além disso, o núcleo albergará estudantes de iniciação cientifica e pós-graduação das áreas afins.
É importante ressaltar que o NPDM é parte da estrutura de pesquisa da UFC e, como tal, vem recebendo o apoio logístico e recursos humanos necessários para a sua manutenção e segurança.
São estes os professores que deverão constituir, inicialmente, o corpo de pesquisadores da UFC: Ana Rosa Pinto Quidute, Ana Paula Negreiros, Cláudia do Ó Pessoa, Claudio Costa dos Santos, Cristiane Sá Roriz Fonteles, Danielle Silveira Macedo, David Freitas de Lucena, Diego Veras Wilke, Fernando Antonio Frota Bezerra, Francisca Cléa Florenço de Sousa, Francisco Vagnaldo Fechine Jamacaru, Geanne Matos de Andrade, Gisela Costa Camarão, Glauce Socorro Barros Viana, Helena Serra Azul Monteiro, Hélio Vitoriano Nobre Júnior, Jairo Diniz Filho, Manoel Odorico de Moraes, Maria Elisabete Amaral de Moraes, Marcus Raimundo Vale, Mariana Lima Vale, Manoel Ricardo Alves Martins, Nylane Maria Nunes de Alencar, Ronaldo Albuquerque Ribeiro, Roberto César Pereira Lima Júnior, Ricardo de Freitas Lima, Silvânia Maria Mendes Vasconcelos e Vilma de Lima.

6 – Como o NPDM se coloca em relação a outros laboratórios do País com os mesmos objetivos?

Infelizmente, não existe no Brasil nenhuma outra estrutura concebida com os mesmos objetivos do NPDM, que se proponha a atuar em todas as etapas da cadeia de desenvolvimento de medicamentos. Algumas, como LNBIO, atuam na etapa de bioprospecção. Outros, como O CIENP, realizam pesquisas farmacológicas e toxicológicas pré-clínicas. Mas, somente o NPDM foi concebido para atuar em todas as fases. Portanto, o NPDM é uma estrutura pioneira no País que deverá contribuir, significativamente, com a indústria farmacêutica brasileira. Mesmo assim, acreditamos que a colaboração com instituições especializadas com o CIENP e o LNBIO em muito deverá contribuir para a consolidação das três instituições. Nesse sentido, já assinamos um termo de colaboração com o CIENP para atuarmos conjuntamente na pesquisa pré-clínica. Outros convênios poderão ser implementados posteriormente com outros laboratórios de pesquisa.

7 – O NPDM será autofinanciável? Como isto vai funcionar?

Há exemplo da Unidade de Farmacologia Clínica da UFC (UNIFAC), o NPDM deverá obter parte do financiamento para a sua manutenção e contratação de pessoal através da prestação de serviços para a indústria e através de plataformas específicas de interesse científico e tecnológico.
Num entanto, pelo menos nos cinco primeiros anos da sua implantação, o NPDM necessitará de complementação dos órgãos financiadores para a sua consolidação e, assim, poder contribuir com as políticas governamentais de inovação em saúde.
A busca de novas moléculas com atividade farmacológica têm nos levado a descoberta de estruturas químicas promissoras, principalmente na área de câncer. As interações com os nossos parceiros, principalmente no Departamento de química da UFC, têm sido fundamentais para descoberta de moléculas inovadoras que deverão funcionar também como fonte de recursos para o NPDM.

8 – O NPDM funcionará também como escola formadora de recursos humanos? A que nível?

Qualquer instituição acadêmica de pesquisa, mesmo que se dedique a prestação de serviços, deve trabalhar tendo em vista também a inovação e a capacitação de recursos humanos. Nesse sentido, faz parte dos objetivos precípuos do NPDM a capacitação ao nível de iniciação científica e de pós-graduação, lato sensu e stricto sensu.

9 – Como fica localizado o NPDM na estrutura da UFC? O senhor terá autonomia administrativa?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que o NPDM recebeu financiamentos com o objetivo de atender uma demanda estratégica para o País. Além disso, existe um “Contrato de Concessão de Colaboração Financeira Não-Reembolsável (No. 10.2.1320.1)”, celebrado entre o BNDES, o principal financiador, e a FCPC com interveniência da Universidade Federal do Ceará, e em consonância com as políticas e diretrizes definidas pelo Ministério da Saúde, Ministério da Ciência e Tecnologia, e o Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio Exterior. Nesse contrato, a UFC, através do seu dirigente maior, se compromete a viabilizar as condições necessárias para que o NPDM possa atingir os seus objetivos. Por outro lado, uma estrutura especializada dessa natureza, só atenderá os seus objetivos quando administrada por profissionais que preencham alguns requisitos fundamentais para que se consiga uma boa interação com indústrias farmacêuticas. O que se pretende não é uma autonomia administrativa pura e simples, mas uma governança interativa e colaborativa com a administração superior da UFC que, inclusive, já disponibilizou a estrutura da FCPC para uma administração conjunta no NPDM.
No que diz respeito a sua posição na estrutura da UFC, o NPDM é um Núcleo de Pesquisa, constituído por professores de diferentes departamentos e ligado a Faculdade de Medicina.

10 – A estrutura organizacional montada facilita a integração das ações, objetivando a eficácia do Núcleo?

Ainda é cedo para afirmarmos que teremos uma estrutura organizacional de sucesso. O estatuto do NPDM aprovado pelo CONSUNI é muito flexível no que diz respeito a sua estrutura administrativa. O futuro regimento deverá basear a administração num Conselho Administrativo composto pelos pesquisadores da instituição que, por sua vez, deverá escolher o seu diretor. Haverá também um Conselho Consultivo composto por representantes dos órgãos financiadores, das entidades de classe representativas das indústrias e da UFC, que sugerirá as políticas de atuação do Núcleo, em consonância com as políticas governamentais. Assim, se pretende fazer um entendimento direto e profícuo entre a academia, o governo e a indústria.

11 – Em sendo o NPDM uma estrutura que trará grande impacto no desenvolvimento de novos medicamentos e na economia com a importação destes para o país, o senhor acredita que terá rotineiramente o apoio do governo Federal para a sua manutenção e fortalecimento?

Atualmente o Brasil importa 93% de todos os insumos necessários à fabricação de medicamentos, gerando um déficit na balança comercial de mais de 10 bilhões de dólares. Além disso, a independência na produção de fármacos é uma questão estratégica e de segurança nacional. Portanto, temos que diminuir, o mais rápido possível, a dependência externa do setor. Por isso, acreditamos que a estratégia do governo seja fortalecer os grupos de pesquisa que têm potencial para contribuir efetivamente para alavancar a indústria farmoquímica e estimular o surgimento de uma indústria farmacêutica forte e inovadora.

12 – O que podemos esperar do NPDM para os próximos 50 anos?

O setor farmacêutico passa por um momento de discussão e implantação de iniciativas que visam reduzir custos e prazos para lançamento de novos medicamentos. Isso envolverá um processo de pesquisa e desenvolvimento mais racional e eficaz, que passa por aspectos tecnológicos e evolução de procedimentos. O que se pode verificar é que a verticalização não é mais o padrão competitivo dominante. Os grandes avanços estarão baseados na integração virtual. Terceiriza-se frequentemente, as etapas de desenvolvimento através de parcerias com outras empresas e instituições de pesquisa. Saber relacionar-se com outros agentes é uma competência essencial para acelerar a colocação de um produto inovador no mercado, assim como para suprir os gap´s de competências tecnológicas.
Vislumbrando esse mercado e a geração de inovação tecnológica na área de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, O NPDM atuará através de parcerias público privadas com indústrias nacionais e internacionais, estreitando o relacionamento com entre a academia e setor produtivo.
O projeto do NPDM foi idealizado para, através da competência acadêmica existente na Universidade Federal do Ceará, atender a crescente demanda da indústria farmacêutica nacional, atuando em todas as etapas da cadeia de desenvolvimento do medicamento desde a química farmacêutica, passando pela caracterização farmacológica e toxicológica pré-clínica, até os estudos clínicos de Fases I, II, III e IV.
O Projeto do NPDM deverá, ao longo dos anos, conquistar a sustentabilidade financeira e autonomia administrativa, ampliar a competência acadêmica existente no setor de PD&I de medicamentos multiplicando o seu potencial de trabalho, além, de se tornar uma referência na capacitação de recursos humanos.
Diante dessa demanda da indústria farmacêutica, que busca reduzir custos no desenvolvimento de medicamentos é extremamente oportuno o fortalecimento de polos farmacêuticos no País. Diferentemente dos avanços ocorridos trazidos pela regulamentação dos medicamentos genéricos, o que se apresenta é uma janela de oportunidade para o Brasil absorver (e gerar) conhecimento ligado à inovação. Esse fortalecimento deve passar ainda pelo setor farmoquímico, para redução de nossa dependência de matérias-primas importadas. Conclui-se que, construir polos farmacêuticos com indústrias inovadoras é uma questão estratégica ao país. No âmbito regional, o NPDM deverá estimular a nucleação de indústrias e contribuir para consolidar um polo industrial farmacêutico no Estado do Ceará.
Por fim, espera-se que o NPDM nos próximos anos, através da integração entre governo, academia e indústria, possa contribuir com o desenvolvimento de diversos produtos inovadores, desde a descoberta de novas moléculas e alvos terapêuticos até o estudo de fármacos que poderão ampliar o acesso aos medicamentos, aumentando a expectativa de vida e melhorando a qualidade de vida do povo brasileiro.

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