Em procedimento inédito no mundo, pele de tilápia é usada em cirurgia de reconstrução vaginal após mudança de sexo

Método desenvolvido na UFC foi aplicado pela primeira vez em reconstrução vaginal pós-cirurgia de redesignação sexual em paciente de Campinas; professor da Universidade participou da cirurgia.

Após ter eficácia comprovada no tratamento de queimaduras e na reconstrução vaginal em pacientes com síndrome de Rokitansky e câncer de vagina, a pele de tilápia acaba de ser testada em mais uma importante aplicação medicinal. O material foi utilizado para reconstrução vaginal pós-cirurgia de redesignação sexual de uma paciente trans de Campinas, em São Paulo. Trata-se de um procedimento inédito no mundo que abre um novo leque de possibilidades no campo da ginecologia.

A cirurgia ocorreu na última terça-feira (23), no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), vinculado à Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O método e todo o know-how para a aplicação da pele de tilápia nesse tipo de intervenção foi desenvolvido no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará.

O Prof. Leonardo Bezerra, do Departamento de Saúde Materno-Infantil e da Pós-Graduação em Cirurgia da UFC, participou do procedimento cirúrgico, que ocorreu na capital paulista por questões logísticas, uma vez que a mulher operada habita no interior do Estado de São Paulo. Segundo ele, a intervenção transcorreu a contento e sem complicações.

Primeiramente, foi feita a retirada de resíduos que ficaram de intervenções anteriores e eram responsáveis pela incapacidade da paciente ter relações sexuais. Na sequência, foi criada a neovagina no espaço entre o reto e a bexiga. Por fim, utilizou-se a pele da tilápia para recobrir toda a cavidade vaginal criada, envolta em um molde que ficará na paciente de cinco a sete dias. A paciente reagiu bem e a expectativa é que tenha alta em uma semana.

Homem segurando pele de tilápia (Foto: Viktor Braga/UFC)
A ideia é que, em breve, a pele de tilápia seja empregada já na cirurgia de redesignação propriamente dita, evitando um canal vaginal estreito e não funcional (Foto: Viktor Braga/UFC)

Além de Bezerra, a equipe contou com pesquisadores da UNICAMP e da Universidade de São Paulo (USP). A paciente em questão já havia sido submetida à cirurgia de redesignação sexual (de homem para mulher). Porém, apresentava um canal vaginal de pequenas proporções, com problemas funcionais, o que ocasionava várias dificuldades.

De acordo com o Prof. Leonardo Bezerra, a queixa de fechamento de canal vaginal ou de um canal não totalmente adequado à relação sexual é comum em mulheres trans que passaram por redesignação sexual. Isso ocorre porque, no procedimento tradicional, a pele do pênis da própria paciente é “ressecada” e revertida para dentro, a fim de construir o canal vaginal. O problema é que, devido ao tratamento hormonal para que o corpo passe a ter características femininas, o pênis e os testículos atrofiam. Por isso, o canal vaginal oriundo do pênis e dos testículos atrofiados tem tamanho reduzido, causando desconforto e limitações às pacientes.

Para reverter esse problema, o método hoje mais utilizado consiste em fazer um enxerto com pele retirada de outras partes do corpo, geralmente do intestino, para aumentar a largura e o comprimento do canal. Esse tipo de cirurgia costuma durar várias horas e tem o inconveniente da necessidade de incisões (cortes), que deixam cicatrizes. O diferencial da cirurgia agora realizada foi refazer o canal vaginal não mais com intestino, mas com pele de tilápia.

“É algo extremamente inovador. Já era inovador o uso da pele de tilápia na neovagina, porém a [síndrome de Rokitansky] é uma doença rara e tem pouco impacto, pois muitas pessoas nem sabem que ela existe. O uso em câncer também é raro, porque o câncer de vagina por si só já é raro. A ideia de utilizar pele de tilápia na cirurgia de redesignação é algo inédito”, explica o Prof. Leonardo Bezerra. “A perspectiva de uso da pele de tilápia já é comprovadamente mais segura, pois estudos anteriores do nosso grupo confirmaram a total ausência de infectantes e uma biocompatibilidade e ausência de rejeições fantástica”, acrescenta.

Segundo ele, o grande benefício é a simplicidade da técnica ‒ considerada de mínima invasividade, já que não é preciso fazer incisões abdominais ‒ e também o baixíssimo custo que a pele de tilápia representa em comparação a outros materiais geralmente utilizados.

Quatro mãos manuseando pele de tilápia (Foto: Viktor Braga/UFC)
A pele de tilápia tem processo de esterilização mais simples, além de possuir um colágeno mais estável, denso e natural do que outras próteses (Foto: Viktor Braga/UFC)

A ideia é que, em breve, a pele de tilápia seja empregada já na cirurgia de redesignação propriamente dita, evitando um canal estreito e não funcional. Em médio prazo, o objetivo é usar a pele de tilápia como primeira prótese biológica de animais aquáticos em ginecologia. Também estão em andamento projetos de uso da pele de tilápia acelular, para tratamento de incontinência urinária e prolapso genital (distúrbio provocado pela perda de sustentação de órgãos que constituem o assoalho pélvico).

Entre outros fatores, a pele de tilápia se destaca por ser a primeira prótese biológica de origem aquática para uso em pessoas, sendo que os animais aquáticos não têm infecções cruzadas com seres humanos, como ocorre no caso de outros animais. Sua esterilização também é mais simples em comparação a outros materiais biológicos, pois exige doses menores de radiação.

Além disso, a pele de tilápia tem um colágeno mais estável, denso e natural do que outras próteses. “Provavelmente estamos lidando com uma prótese biológica inédita, que tem perenidade, sustentabilidade e resistência muito maior, com toda a biocompatibilidade”, ressalta Bezerra.

O professor destaca a importância do NPDM para as pesquisas e aplicações com pele de tilápia. Por meio do núcleo, a UFC passou a ter o primeiro banco de pele animal do País (http://www.agencia.ufc.br/ufc-lanca-primeiro-banco-de-pele-animal-do-pais/). Todo o procedimento com a pele de tilápia, incluindo beneficiamento, esterilização, armazenamento e fornecimento, é feito no NPDM, em parceria com o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ) do Instituto Dr. José Frota.

PRÓXIMOS PASSOS

Atualmente, a Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), da UFC, já utiliza pele de tilápia de forma sistemática em cirurgias de pacientes com síndrome de Rokitansky. Dez mulheres já foram operadas, e algumas delas já estão tendo atividade sexual. O objetivo agora é tentar levar essa pesquisa a outros lugares, beneficiando inicialmente mulheres dos Estados da Bahia, Pará, Pernambuco e São Paulo, por meio de parcerias com universidades desses estados, tornando, assim, o estudo multicêntrico. O trâmite burocrático para essa ampliação está em andamento.

Em relação à cirurgia em pacientes com sequelas de câncer, o intuito é ampliar o número de casos (por enquanto houve apenas uma paciente, que teve bons resultados e também já retomou as atividades sexuais; ela está sendo acompanhada regularmente por uma equipe da MEAC). E o terceiro ponto do tripé é a utilização em cirurgias de redesignação sexual, cujo passo inicial foi dado agora.

DIVERSIDADE DE APLICAÇÕES

O Prof. Odorico de Moraes, coordenador do NPDM, reitera que essa é mais uma conquista alcançada nas pesquisas com pele de tilápia, desta vez contribuindo para reduzir ou eliminar uma limitação no campo da ginecologia. “A pele de tilápia tem um potencial enorme em vários campos da medicina. Hoje estamos estudando 18 empregos diferentes da pele de tilápia, com potencial de poder chegar a muito mais. É algo em que estamos investindo pesado para alcançar inovações”, diz o pesquisador. Ele frisa que esses resultados são fruto do trabalho contínuo e articulado de uma grande equipe, incluindo pesquisadores do NPDM e de outras instituições.

Professor Odorico de Moraes de pé em uma biblioteca (Foto: Viktor Braga/UFC)
Coordenador do NPDM, o Prof. Odorico de Moraes diz que atualmente são estudados 18 empregos diferentes da pele de tilápia, com grande potencial de crescimento (Foto: Viktor Braga/UFC)

O presidente do Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), Edmar Maciel Lima Júnior, que coordena as pesquisas com a pele de tilápia ao lado do Prof. Odorico, acrescenta que, hoje, há estudos sobre o uso do material em sete estados do Brasil e em seis países, com 43 projetos de pesquisa em andamento. “Inclusive, estamos iniciando um estudo em Cali, na Colômbia, sobre o uso da pele da tilápia liofilizada (desidratada e irradiada) em pacientes que fizeram a redesignação sexual, financiado pela Unichristus”, afirma o médico.

O presidente do IAQ, Edmar Maciel, sentando, dando entrevista (Foto: Viktor Braga)
O presidente do IAQ, Edmar Maciel, diz que há estudos sobre o uso da pele de tilápia em sete estados do Brasil e em seis países, com 43 projetos de pesquisa em andamento (Foto: Jr Panela/UFC)

Edmar Maciel explica, ainda, que a rede de pesquisadores envolve 189 colaboradores, dedicados a estudar o potencial da pele de tilápia em áreas que vão da odontologia à veterinária. “Estamos desenvolvendo produtos que ainda serão testados: válvulas cardíacas, vasos para [procedimentos de] revascularização, [uso da pele da tilápia para] hérnia abdominal, dentre outros. São inúmeros os produtos desenvolvidos laboratorialmente”, afirma.

Fonte: Prof. Leonardo Bezerra, do Departamento de Saúde Materno-Infantil e pesquisador do NPDM – e-mail: leonardobezerragineco@gmail.com

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